terça-feira, 1 de maio de 2012

Processamento de dados

PROCESSAMENTO DE DADOS Eis o título dado à disciplina em que ele se inscreveu. Ele, meu paciente, que o acompanho há alguns anos na faculdade de engenharia. DISCIPLINA! Um aluno bem disciplinado. Tão disciplinado que não descola das palavras e comandos de ordem que aprendemos ao longo de nossa história escolar. Ele, um copista de mão cheia, parece uma máquina. Opera de modo tão focado e obsessivo que nada o faz parar. Se o professor está a frente, na lousa, atrapalhando sua continuidade na tarefa de copiar, não tem dúvida, pede licença, sem a menor desconfiança de que isso significa interromper a sequência da aula. Ou então, se levanta e encontra um outro lugar que privilegie sua visão (para o pedaço em foco), que no geral, significa ficar em pé com o caderno na mão estorvando a visão do restante dos alunos de sua sala. Mas estes outros alunos também sao disciplinados, não exprimem nenhum incômodo e aguardam a lentidão do copista profissional, que de tão profissional não se desvia do seu afazer, não ouve as piadas, não dá risada junto com seus colegas e acaba também perdendo as explicações, as dicas ou outros quaisquer comentários.


Em 'processamento de dados' agravantes aparecem. Embora regras, signos, símbolos e convenções existam para que uma linguagem comum possa ser funcional, há um grande furo nisso tudo. COMO PROCESSAR OS DADOS? Como programar os caminhos para que um dado possa ser processado? Construir um programa para que o computador possa processar os dados, executar a tarefa e armazenar na memória? Organiza-los, descrevê-los, passo-a-passo, perseguir um caminho, destrinchá-lo, prever desvios, decompor o raciocínio para que uma máquina possar refazer o trajeto tantas vezes forem necessárias, fazendo o mesmo procedimento, independente dos dados oferecidos. Decompor um processo, elencar suas primícias, prever atalhos, prevenir erros, estabelecer condições. Até o "erro", o "inexistente", o "incompatível" precisam ser contemplados, previstos e nomeados. A receita tem que ser sempre a mesma, mesmo que os ingredientes sejam diferentes. Metodizar um processo para que depois vire apenas um comando.


A disciplina é complexa: como desajustar, fazer pifar o comando-automatismo, como por exemplo, copiar, dentre tantos outros comandos obsessivos de métodos engessados para fazer caber, abrir um espaço para outros modos de pensar?


Será que dá? Será que a máquina-ele-estudante, já há anos forjada deste modo, num certo automatismo que não aguenta um desvio sequer poderia ser REPROGRAMADO?


Como abrir a compreensão de que existem vários caminhos? Vários programas ou modos de programar a mesma coisa, que não invalidem o seu próprio modo de pensar e nem o modo como o outro elaborou o próprio trajeto ou o próprio raciocínio?


Um copista de profissão e aluno preocupado em fazer "o certo", ao acompanhar a resolução do professor na lousa de um algoritmo computacional, detecta uma vírgula fora do lugar, ou então a ordem descritiva invertida ou ainda uma condição de existência oposta, logo se desespera e entra o comando "erro" antes do comando "vou processar a diferença" ou ao menos se entrasse o comando "rever", evitaria, por alguns instantes, o gesto violento de sair apagando tudo, quase rasgando toda a página preenchida do caderno, nem se atentando ao graduações possíveis... Não! Tudo parece ser um BLOCO só, que só cabe em uma das categorias: CERTO ou ERRADO. Substitui tudo o que pensou e elaborou sobre seu próprio raciocínio, substituindo fielmente pelo que o professor escreveu.


Como freá-lo? Como abrir algum espaço?
Rever o automatismo? E o componente obsessivo?

Expirar: um retorno, uma devolução liberando o que estava aprisionado

Inspiração para o músico EXPIRAR,
um sopro melódico, de arrancar susprios,

  Tubos, instrumentos, que mantém uns vivos,
  e para outros, manutenção da vitalidade...

Quantas respirações por minuto?
Qual a frequência, o espaço, a pausa, o silêncio?
Expiração? Inspiração?

        Compassado ou descompassado...
        Tudo marcação de tempos...

Um som contínuo e estridente,
    um sinal de uma descontinuidade
 e de uma morte eterna,
    o prazo expirou...

quinta-feira, 15 de março de 2012

Pede passagem
Pé de passagem
passos a pé


AS MELHORES IDEIAS SURGEM AO AR LIVRE!!!!!


Pede passagem o pensamento livre, 
despreendido, solto, esvoaçante, claudicante, flutuante!


FLUTUANDE
   FLUXUANDE


PENSAMENTO SEM PASSO A PASSO
MAS UM PASSO QUE PEDE PASSAGEM

terça-feira, 13 de março de 2012

"O pássaro quando fica numa gaiola, fica se debatendo, desesperado para sair. Para que ele fique manso, não se maltrate, não fique se bicando até a morte, é preciso cobrir a gaiola com um pano branco. Ele não pode ver o lado de fora, é o único jeito dele se acalmar e sobreviver. Sobreviver confinado para um pássaro é difícil... Eu quando tinha um pássaros quando novo eu soltava todos, não aguentava deixá-los engaiolado." - essa é uma fala de uma interno de uma clínica psiquiátrica há 13 anos. 
Pergunto então se a vida na clínica é muito diferente da vida dos pássaros engaiolados. Ele me responde: "Não, não, é quase a mesma coisa, é melhor não ver e não saber o que está acontecendo do lado de fora, senão fica dífícl". - afirma ele, que se diz velho pra tentar novas fugas da clínica, embora conheça todas as facilidades e rotas de fuga, seja beirando o riozinho que passa nas costas da clínica, seja saindo pela fábrica de cimentos ou pulando um muro perto do campinho...


Acrescento: "É, não deve ser fácil, mas há também nas clínicas um modo de aquietar os pacientes e mantê-los numa sobrevida... são técnicas mais apuradas, envolvendo desenvolvimento tecnológico e farmacêutico, mas o princípio é o mesmo do tecido branco: cegar, impedir a visão, subir muros, isolar...

ENCONTRAR-TE NA BAGAGEM




 

ENCONTRAR-TE

Grupo gerido por uma simples ideia: inventar um modo de trabalho e de fazer uma clínica singular de forma coletiva.
Grupo que se sustenta há 7 anos pelo desejo de experimentação, ampliação dos dispositivos existentes, exploração, habitação e provocação de uma instigante e contraditória cidade. Grupo que nutriu vários modos de estar com, viver junto e pensar uma clínica, uma certa clínica da terapia ocupacional, que carregamos conosco. Incubou uma série de outros projetos e encorajou-nos de diversas formas a propagar esta experiência e a nos lançar a outros espaços, muitas vezes sem nos darmos conta, levando em nossa bagagem um certo modo de olhar para o outro, um certo modo de nos relacionarmos com o outro, um certo modo de CUIDAR.
A sustentação desse trabalho, até hoje, é regada a muito custo, mas este trabalho também possibilita um pagamento que tem durado, e que nos é muito caro, recebemos um retorno que nunca se traduziu em salários, mas que garante uma exploração pela cidade dos vários sabores que ela oferece... mesmo recebendo tão pouco, ainda sim este é o trabalho que, embora muitas de nós já não estejam compondo-o, melhor nos paga: produz encontros.

REPERCUSSÃO

[RE.PER.CUS.SÃO]
1. Percutir novamente; 2. Efeito de uma percussão; 3. Efeito em ondas, efeito que se propaga infinitamente... 4. Re-percu(R)são: rever um grande percurso. 5. Re + percurso + excursão= repercussão

Um desejo de investigação coletiva de um pensamento-ação-dispositivo de um modo de fazer clínica que produzimos no Encontrar-te, durante estes 7 anos de existência. Desejo de pesquisar as repercussões produzidas e as marcas tatuadas em nossos modos de fazer e ser terapeutas. Perseguir mais atentamente e também mais frouxamente os rastros desta experiência, na tentativa de dar forma, palavas, gestos, sentido, valor e circulação para tanta riqueza vivida neste coletivo. 

Auscutar as repercussões. Abrir canais e espaço para acolher as ondas ou simplesmente tentar acompanhar os rastros deixados por elas. Ondas que se propagaram para várias direções, ganhando diferentes sentidos... percorrer e revisitar as marcas deixadas por estas ondas em nós e em outros tantos... 

De-compor movimento

A proposta parecia simples: de-com-por  mo-vi-men-tos para a criação de uma maquininha: zootrópio.
O zootrópio é uma pequena engenhoca em que uma sequencia de imagens, fragmentos de uma ação, é colocado em movimento, produzindo um vídeo. Nada mais do que ações decompostas em imagens congeladas colocadas em movimento que dão a noção de continuidade, projetando a sequência de uma ação.

A tarefa era simples, apenas congelar uma ação qualquer: dançar, andar, bater palmas, mexer a cabeça, movimentar os braços... Capturar os instantes distintos que uma ação exige, congelar cada instante, cada fragmento.

A dificuldade apareceu rapidamente: como decompor um movimento?? O corpo não obedece, a suspensão, a pausa era um pedido de congelamento da instantaneidade!!! Como fazer isso??? Aquele corpo que parecia funcionar em blocos não conseguia separar estes blocos! Incrível!!! Tarefa muito complexa, muito elaborada... como fragmentar o que está em movimento? Como perceber os vários INSTANTÂNEOS que nos habitam? Como capturar as graduações todas? A exigência de decompor um automatismo, automatismo de corpos que são habitados por lentidões próprias... A contraditória e irônica tarefa de lentificar ainda mais, a ponto de congelar movimentos de corpos que parecem demorar pra pegar, que temos a sensação de que pegam no tranco e que, portanto, parecem estar estagnados, já previamente congelados, o que nos faz julgar como corpos em repouso, descanso, corpos passivos... Esses corpos surpreendentemente habitam velocidades, velocidades desaceleradas talvez, velocidades lentas, ou ainda descompassadas, sem encadeamento regular, enfim, corpos habitados por ritmos singulares...
Isso dá uma aflição: há muito automatismo!!!!
Mas também dá um alívio: corpos em movimento = corpos VIVOS