terça-feira, 13 de setembro de 2011

Alinhavar
[a.li.nha.var]


1. Coser com pontos largos, com uma largura maior 2. coser estra-tegicamente com uma certa frouxidão.  3. Executar sem muito acabamento, i.e., executar com o inacabamento.  4. Alinhavar: a linha vai  5. A linha de fuga de um percurso.      6. Alinhavos: a linha, a vós. 7. Alinhavos + linha de fuga = a linha de voz de fuga.

para o universo produtivo seria "cosmético"

acompanhá-lo é acompanhar suas graduações,
de grau em grau é que podemos sentir sua presença, sua medida;
sua ordem de grandeza é a própria pequeneza, sutil e delicada.
O mundo exige pessoas funcionais, ele é puramente estético,
sua ética se compromete com o que para o universo produtivo seria “cosmético”.

Sinto uma calibragem, uma sintonia fina que exige uma apuração de meu tato. Tocamos o mundo com as mãos, saboreamo-nos com as palavras, um diálogo dançante nos mostra a potência de criação nesse encontro.

A investigação desejada por ele é explorar materiais, extrair deles o que há de mais secreto, sensível; um verdadeiro garimpo já se iniciou na “casa do artista”. Sentimos as gramaturas e viscosidades dos papéis, selecionamos com as mãos, não com os olhos e nem com o bolso. Desligamos o automatismo do olhar que costumeiramente vai ao encontro das etiquetas, legendas e outras notas explicativas que pouco dizem sobre o produto. Não, nós não fazemos isso, apuramos o tato, calibramos as mãos e seguimos de prateleira em prateleira.

Saboreamos um café filado na própria loja. Nos emocionamos, algo nos sensibiliza ali, naquele lugar, depois daquele café, no segundo andar da loja, em meio a livros. Remeteu-me esta experiência tácita as minhas idas as feiras, aos cheiros de goiaba, misturados ao de cravo da índia e manjericão. Aquele show de cores, sensação de estar viva. Ativação do vital, que por vezes está amortizado, cego, esquecido.

Não posso fazer enfretamentos burocráticos-institucionais com ele ou por, seja ir ao hospital, delegacias ou advogados. Não quero a cura, nem o barraco, muito menos a justiça. Nos aterremos na lua, e é para isso que seria o at neste caso. Divagamos neste plano lunático derivante, em constante suspensão. Deixemos para os espirituais, justiceiros os enfrentamentos esgotantes, as brigas sem fim. Desperdício de energia nesta relação. Preocupamo-nos com a forma ou com o desejo de desenformar-nos.


sabedoria esquizo

Certa vez um paciente me disse:
eu tenho dois irmãos, portanto somos em três:
eu sou o louco, tem o presidiário e o operário.


Os confinamentos só mudam de endereço:
o hospital, a prisão e a fábrica.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

LIMITE


A poesia se converte em religião para aquele que chegou ao limite do despossuimento da fala. Quando o mundo vai se desvanecendo e indo embora, quando os outros vão ficando estranhos e o insondável vira o nosso cotidiano companheiro, tudo o que desejamos é um religamento; um maçarico amoroso que solde novamente nossa pertença quebrada e nos retire deste divórcio de suspensão. Quando todas as outras prosas vão morrendo e se gastando, só a poesia pode nos acordar e reintroduzir-nos na vitalidade e na trama do tempo... Mas a poesia deve então instaurar um novo mundo, pois o antigo já não tem mais sentido para nós... já perdemos a familiaridade... e sonhamos com uma nova espessura do tempo – o tempo feito de outra tecitura.


- Juliano Pessanha

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Minhas Tardes com Margueritte (13.7.11)

Um filme sobre encontros. Encontros no bar com os amigos, encontros no ponto de ônibus, na praça da cidade, encontros com pombos, pessoas e palavras. Um filme sobre encontros amorosos. Amor de todo tipo, mas há um encontro singular: Margueritte e Germain.

Encontram-se numa praça todas as tardes. Margueritte sempre com livros e Germain sempre com simplicidade. A cada encontro dessa combinação somos cintilados com um novo encanto; da voz idosa de Margueritte e do imaginário de um leitor sedento, Germain, viajamos pelo universo das palavras e da fabulação.

Germain, um semi analfabeto, atrapalhado com os estudos desde criança, comete diversas gafes, suas palavras de consolo são tiros pela culatra, caçoado sempre, sendo alvo de desvalor. Mesmo assim segue, na contramão do habitual, denuncia as desfuncionalidades das coisas, especialmente de um dicionário. Indigna-se com a incompletude desse instrumento da gramática. Margueritte com paciência e suavidade vai cultivando o gosto de Germain pela literatura.
Amam-se intensamente e delicadamente. Uma ética do encontro é o que faz o filme vibrar, ativando os sentidos de quem o assiste. Um verdadeiro compromisso, um afável companheirismo se coloca, e nos lembra ou denuncia o quanto estamos amortecidos, catatônicos, sem vitalidade alguma.

Me fez lembrar do amor que é a relação terapêutica. Relação de entrega, confiança e generosidade.
Sinto um desejo de celebrar a vida, me faz lembrar do porquê faço o que faço, de quanto o meu trabalho é vital, me desloca e me ativa, me sensibiliza, trazendo à superfície o quanto a vida vale a pena ser vivida!