Pontos de ônibus
Sempre tive fascínio por pontos de ônibus.
Lugar de passagem em que centenas de transeuntes interrompem seu trânsito,
embarcam e desembarcam. Pontos que ligados a outros pontos determinam trajetos,
acolhem partidas e também despedidas. Mas meu fascínio sempre pousou, em
especial, pela possibilidade de permanência, por serem lugares de “paragem”. Pode-se
ficar por horas a fio em um ponto de ônibus sem que ninguém se incomode, sem
que ninguém te pergunte porque está lá... é como cair doente e conquistar o
direito de ficar na cama o dia todo... porque ao que parece é que não se pode
simplesmente estar em algum lugar sem que se nada faça, sem que se possa
explicar o motivo da presença ou a função que simplesmente “estar” possa
desempenhar. Até mesmo nos parques, mal vemos pessoas sedentárias... a prática
contemplativa não parece mais ter lugar para se abrigar.
O ponto de ônibus é um lugar em que se pode
assistir a pressa alheia sem precisar embarcar. É poder permanecer nesse lugar
de paragem, de interrupção do itinerário, é permanecer no meio, sem precisar ir
ou voltar.
É bem verdade que poderiam ser mais
aconchegantes, visto que os benefícios a quem deles usufrui, no geral, são atravessados
por diversos intempéries das mudanças climáticas nessa nossa cidade grande... Mas
há imensas variações de pontos de ônibus. Sempre desejei traçar uma cartografia
imagética dos diversos pontos de ônibus. Há anos coleciono fotografias de
pontos de ônibus. Pontos cobertos, descobertos, pontos que são apenas um pedaço
de pau. Já vi pontos de ônibus sendo deslocados por moradores de um certo
vilarejo para que atendesse melhor suas necessidades. Gosto de ver os pontos de
ônibus no caminho do litoral sul de São Paulo. São muito simples, mas cheios de
vestígios de quem por lá passou. Por vezes são acompanhados de pequenas
barracas de vendedores de bananas ou de carangueijos, vendedores de estradas. Pontos
do tamanho de ônibus biarticulados, pontos em que há um desenho apenas
indicando ou ainda pontos de aço escovado, parecendo obras minimalistas. Certa
vez fui de trem a uma cidade vizinha a São Paulo chamada Ribeirão Pires. Me
chamou a atenção um ponto de ônibus todo mimoso, com telhadinho feito casa de interior,
banco de madeira lustrado e colunas pintadas de rosa salmão. Mas não habitava
ninguém nessa morada tão charmosa. Talvez porque ninguém habite os pontos de
ônibus, talvez porque as distâncias a percorrer pela cidade fossem reduzidas
não necessitando ônibus ou simplesmente porque quase não passavam ônibus por lá.
Em
Curitiba, a prefeitura instalou em um determinado ano, um inovador ponto de
ônibus. Correu de boca em boca, ganhou destaque nacional. Lembro-me bem que a
divulgação toda era assinada por tal design/arquiteto ou seja lá quem invente a
moda desse abrigo. Eles tinham um formato tubular, de vidro, provavelmente
hermeticamente vedado para evitar que os usuários do ponto ficassem molhados em
dias de chuva. No entanto, o que não se previu foi a função que o vidro
desempenha quando a chuva dá lugar ao sol. Verdadeiros micro ondas, cozinhavam tanto
a espera do ônibus que às vezes passava do ponto!
Os pontos de ônibus parecem abrigar
apenas pessoas inquietas, apreensivas que olham de dois em dois segundos,
espaço de tempo muito menor que a abertura do farol que liberaria um novo fluxo
de veículos e ônibus a passar no ponto. Parece que a espera de um ônibus que
levará a um destino, por vezes, é regada de ansiedade, pressa, raiva,
dependendo da necessidade, urgência ou desespero de se chegar ao destino.
Espera-se o ônibus para ir ao trabalho, espera-se o ônibus para ir a escola, a
uma consulta médica, ao correio. Espera-se o ônibus para visitar alguém ou para
rever a amada. Também a espera pode ser pela chegada de alguém. Alguém que
desembarcará. Primeiro encontro, reencontro, desencontro. Um ponto de ônibus
pode abrigar tantas variações!!! Gosto de ficar a observar esses diferentes
usos que um ponto de ônibus pode conter para depois contar. Conto quantos
ônibus passam, observo quantos ônibus não passam, quantas pessoas embarcam e
quantos bufam por não ser ainda seu momento de embarque. Conto os que cantam.
Conto nos dedos os que contam suas histórias. Muitos contém seus ânimos, afinal
de contas, não é fácil viver só de ônibus para conter os gastos.
Eu contemplo a espera do outro. Não espero por
um ônibus, não espero o embarque, não espero o reencontro, não espero pelo
trajeto. Eu embarco apenas na viagem de permanecer e ver o outro partir, tenho
o bilhete (certamente único) da paragem, de demorar-me sem me incomodar... Confesso
aqui que não é de toda verdade que não me incomodo nunca. Me incomodo sim com
minha própria ociosidade no ponto de paragem. Também me inquieto com “fazer
nada” e então, cubro-me com meus fiéis escudeiros: os livros. Sempre eles me
acompanham, mas é irritante quando eu preciso mesmo tomar o ônibus porque me
vejo obstinada a conferir sua chegada a fim de não perdê-lo e a leitura é
interrompida pela minha ânsia como daqueles que ficam obsessivamente olhando
para o relógio no pulso.
Lembro-me de que uma vez eu e minha irmã,
ainda jovenzinhas, experimentando os itinerários de certos ônibus que passavam
em frente a nossa casa, tomamos um ônibus para ir a Av. Ibirapuera, e confiando
no cobrador que confirmara nosso ponto final como fazendo parte do itinerário
do ônibus, subimos e seguimos viagem. Em um determinado momento nos demos conta
que o caminho não era muito familiar. As ruas que deveriam conter nomes de
pássaros ou palavras indígenas deram lugar a nomes estrangeiros: Rua Canadá,
Rua Estados Unidos, Rua Colômbia. Estávamos muito longe de casa! Tivemos algum
problema de línguas com o cobrador! E agora? Como não sabíamos o que fazer com
essa mudança de percurso, nada fizemos! E nos encantamos com a mudança de
trajeto até que ele nos levou a alguma proximidade com a Av. Paulista e lá
desembarcamos.
Não poderia me esquecer das dezenas de férias de
verão que passei em Araçatuba na cidade de meus avós maternos. Eles moravam a
poucas quadras da rodoviária da cidade. Meu avô, como todo bom avô nos levava
para passear todos os dias para comprar doces nas lojinhas estrategicamente
abrigadas nas rodoviárias de qualquer lugar do mundo. Minha alegria não eram os
doces, mas que obviamente eu não recusava, pois afinal de contas, eram eles que
me propiciavam esse delicioso passeio diário. Minha satisfação era transitar
pelas plataformas de ônibus numeradas e observar aquelas pessoas todas em fila
esperando para embarcar.
Bem mais tarde, mas ainda habitada por
essas imagens de rodoviárias que nada mais são do que pontos de ônibus em maior
escala e estrutura, ficava pensando se a distância era a mesma para quem
chegava ou para quem partia. Chegar a algum lugar teria a mesma distância do
que partir ou retornar, mesmo que os pontos de partida e chegada fossem os
mesmos? Sentidos opostos poderiam variar mesmo que a trajetória fosse a mesma?
O que sei de tudo isso é que pontos de ônibus
continuam a me instigar, abrigam meu deleite de contemplar as variações que por
eles percorrem. Variações de espaço, variações de tempo, variações de
percursos... Um ponto que nunca me
parecerá final, um ponto no meio, um ponto reticente... um eterno exercício de
poder dormir no ponto!


