segunda-feira, 21 de março de 2016

LIMIARES PRÓPRIOS (passagem do verão para o outono)


Pontos de ônibus

Sempre tive fascínio por pontos de ônibus. Lugar de passagem em que centenas de transeuntes interrompem seu trânsito, embarcam e desembarcam. Pontos que ligados a outros pontos determinam trajetos, acolhem partidas e também despedidas. Mas meu fascínio sempre pousou, em especial, pela possibilidade de permanência, por serem lugares de “paragem”. Pode-se ficar por horas a fio em um ponto de ônibus sem que ninguém se incomode, sem que ninguém te pergunte porque está lá... é como cair doente e conquistar o direito de ficar na cama o dia todo... porque ao que parece é que não se pode simplesmente estar em algum lugar sem que se nada faça, sem que se possa explicar o motivo da presença ou a função que simplesmente “estar” possa desempenhar. Até mesmo nos parques, mal vemos pessoas sedentárias... a prática contemplativa não parece mais ter lugar para se abrigar.  

O ponto de ônibus é um lugar em que se pode assistir a pressa alheia sem precisar embarcar. É poder permanecer nesse lugar de paragem, de interrupção do itinerário, é permanecer no meio, sem precisar ir ou voltar.
É bem verdade que poderiam ser mais aconchegantes, visto que os benefícios a quem deles usufrui, no geral, são atravessados por diversos intempéries das mudanças climáticas nessa nossa cidade grande... Mas há imensas variações de pontos de ônibus. Sempre desejei traçar uma cartografia imagética dos diversos pontos de ônibus. Há anos coleciono fotografias de pontos de ônibus. Pontos cobertos, descobertos, pontos que são apenas um pedaço de pau. Já vi pontos de ônibus sendo deslocados por moradores de um certo vilarejo para que atendesse melhor suas necessidades. Gosto de ver os pontos de ônibus no caminho do litoral sul de São Paulo. São muito simples, mas cheios de vestígios de quem por lá passou. Por vezes são acompanhados de pequenas barracas de vendedores de bananas ou de carangueijos, vendedores de estradas. Pontos do tamanho de ônibus biarticulados, pontos em que há um desenho apenas indicando ou ainda pontos de aço escovado, parecendo obras minimalistas. Certa vez fui de trem a uma cidade vizinha a São Paulo chamada Ribeirão Pires. Me chamou a atenção um ponto de ônibus todo mimoso, com telhadinho feito casa de interior, banco de madeira lustrado e colunas pintadas de rosa salmão. Mas não habitava ninguém nessa morada tão charmosa. Talvez porque ninguém habite os pontos de ônibus, talvez porque as distâncias a percorrer pela cidade fossem reduzidas não necessitando ônibus ou simplesmente porque quase não passavam ônibus por lá.
            Em Curitiba, a prefeitura instalou em um determinado ano, um inovador ponto de ônibus. Correu de boca em boca, ganhou destaque nacional. Lembro-me bem que a divulgação toda era assinada por tal design/arquiteto ou seja lá quem invente a moda desse abrigo. Eles tinham um formato tubular, de vidro, provavelmente hermeticamente vedado para evitar que os usuários do ponto ficassem molhados em dias de chuva. No entanto, o que não se previu foi a função que o vidro desempenha quando a chuva dá lugar ao sol. Verdadeiros micro ondas, cozinhavam tanto a espera do ônibus que às vezes passava do ponto!

Os pontos de ônibus parecem abrigar apenas pessoas inquietas, apreensivas que olham de dois em dois segundos, espaço de tempo muito menor que a abertura do farol que liberaria um novo fluxo de veículos e ônibus a passar no ponto. Parece que a espera de um ônibus que levará a um destino, por vezes, é regada de ansiedade, pressa, raiva, dependendo da necessidade, urgência ou desespero de se chegar ao destino. Espera-se o ônibus para ir ao trabalho, espera-se o ônibus para ir a escola, a uma consulta médica, ao correio. Espera-se o ônibus para visitar alguém ou para rever a amada. Também a espera pode ser pela chegada de alguém. Alguém que desembarcará. Primeiro encontro, reencontro, desencontro. Um ponto de ônibus pode abrigar tantas variações!!! Gosto de ficar a observar esses diferentes usos que um ponto de ônibus pode conter para depois contar. Conto quantos ônibus passam, observo quantos ônibus não passam, quantas pessoas embarcam e quantos bufam por não ser ainda seu momento de embarque. Conto os que cantam. Conto nos dedos os que contam suas histórias. Muitos contém seus ânimos, afinal de contas, não é fácil viver só de ônibus para conter os gastos.

Eu contemplo a espera do outro. Não espero por um ônibus, não espero o embarque, não espero o reencontro, não espero pelo trajeto. Eu embarco apenas na viagem de permanecer e ver o outro partir, tenho o bilhete (certamente único) da paragem, de demorar-me sem me incomodar... Confesso aqui que não é de toda verdade que não me incomodo nunca. Me incomodo sim com minha própria ociosidade no ponto de paragem. Também me inquieto com “fazer nada” e então, cubro-me com meus fiéis escudeiros: os livros. Sempre eles me acompanham, mas é irritante quando eu preciso mesmo tomar o ônibus porque me vejo obstinada a conferir sua chegada a fim de não perdê-lo e a leitura é interrompida pela minha ânsia como daqueles que ficam obsessivamente olhando para o relógio no pulso.

Lembro-me de que uma vez eu e minha irmã, ainda jovenzinhas, experimentando os itinerários de certos ônibus que passavam em frente a nossa casa, tomamos um ônibus para ir a Av. Ibirapuera, e confiando no cobrador que confirmara nosso ponto final como fazendo parte do itinerário do ônibus, subimos e seguimos viagem. Em um determinado momento nos demos conta que o caminho não era muito familiar. As ruas que deveriam conter nomes de pássaros ou palavras indígenas deram lugar a nomes estrangeiros: Rua Canadá, Rua Estados Unidos, Rua Colômbia. Estávamos muito longe de casa! Tivemos algum problema de línguas com o cobrador! E agora? Como não sabíamos o que fazer com essa mudança de percurso, nada fizemos! E nos encantamos com a mudança de trajeto até que ele nos levou a alguma proximidade com a Av. Paulista e lá desembarcamos.  

Não poderia me esquecer das dezenas de férias de verão que passei em Araçatuba na cidade de meus avós maternos. Eles moravam a poucas quadras da rodoviária da cidade. Meu avô, como todo bom avô nos levava para passear todos os dias para comprar doces nas lojinhas estrategicamente abrigadas nas rodoviárias de qualquer lugar do mundo. Minha alegria não eram os doces, mas que obviamente eu não recusava, pois afinal de contas, eram eles que me propiciavam esse delicioso passeio diário. Minha satisfação era transitar pelas plataformas de ônibus numeradas e observar aquelas pessoas todas em fila esperando para embarcar.
Bem mais tarde, mas ainda habitada por essas imagens de rodoviárias que nada mais são do que pontos de ônibus em maior escala e estrutura, ficava pensando se a distância era a mesma para quem chegava ou para quem partia. Chegar a algum lugar teria a mesma distância do que partir ou retornar, mesmo que os pontos de partida e chegada fossem os mesmos? Sentidos opostos poderiam variar mesmo que a trajetória fosse a mesma?


O que sei de tudo isso é que pontos de ônibus continuam a me instigar, abrigam meu deleite de contemplar as variações que por eles percorrem. Variações de espaço, variações de tempo, variações de percursos...  Um ponto que nunca me parecerá final, um ponto no meio, um ponto reticente... um eterno exercício de poder dormir no ponto!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

vagar a luz

Vaga... vagar...
Lume... lumen... luz...
Vagar pela luz, vaga-luz...
Devagar...
Divagar...
vagarosamente...
Apagar... acender...

Fluxos de cintilação...
feixes luminosos...

Corta! Blackout!
Hoje encerra-se a longa temporada de vaga-lumes artificiais das decorações de final de ano! 
Os reis magos chegam presenteando o aniversariante a cada novo ano e levam consigo todas as luzes... 

Haja luz!!


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

sem sombra de dúvida, um horizonte transversal

EM VIVO CONTATO


Do sentir - Mario Perniola

"O alheamento do sentir não consiste em delegar noutros o que deveríamos ser nós a sentir e muito menos na hipótese de algum modelo respeitável nos vir ensinar o modo como devemos sentir. Se se tratasse simplesmente de um mandar sentir, a estrutura deste não seria alterada: a delegação poderia ser revogada em qualquer momento e nós poderíamos voltar a sentir de modo directo. Na realidade, hoje ninguém parece disposto a delegar a experiência do já sentido noutros: ninguém quer se excluído da experiência do já sentido!" PERNIOLA, Trad. Guerreiro, Do sentir, Lisboa: Editoral Presença, 1993, p.23 

sábado, 2 de janeiro de 2016

Oficina Processos Criativos - a Relação entre Escritor e Ilustrador 

Composição textual a partir de desenho de Nair
sobre o tema "casaco e o fim de um relacionamento"


"Cada um conta sua história...

contém seus rastros, carrega suas marcas...
molda e é moldado,
Estica, alarga
Aperta, sufoca...


Abraço,

Deita-me...

Passo,

Lavo,
Guardo,
Me guarda...

Mas me pergunto:

o quanto aqueceria ainda?
Moldaria meu corpo?
Cairia bem?
Ainda caberia em meu armário?
Comporia com meu vestuário?

Parecia-me frio, sem calorosidade...

Não mais me trazia aconchego,
Já não me parece dar mobilidade

Gola apertada,

Punho surrado,
Barra esgarçada...

Tomaríamos direções contrárias?

Talvez...

De uns tempos pra cá,

Passou a ficar pesado demais,
Apertado demais,
Engomado demais,

Talvez seja hora dele passar para um outro corpo,

Partilhar de outras composições,
Acalourar outras formas,
Seguir outros caminhos,

Experimentaríamos novas direções."



 ***


"CASACO

ORA CASA,
ORA OCA,
OUTRORA ASA,

ADORA CASO,

CACO...
TERMINA EM SOCO


QUANDO NÃO ASCO,

SERIA ACASO?

POR VEZES, CASCO,

POR ORA AÇO,
AGORA OCO..."

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

botão on-off

Que difícil modulação de extremos...
Método tateante de se mover por uma conversa, de estar atento ao grau de escuta e interesse daquele que ouve. Rever modos, reavaliar tom, escolher as palavras, adaptar falas...
difícil tarefa de graduar...
graduações...
De grau em grau...
Sacar quando interromper ou prolongar uma conversa, avaliando onde mora o interesse: em mim em dizer, no outro em escutar, ou  ainda, em mim de ser ouvido.

Modo tateante de modular para se evitar os binômios simplistas, não apenas na fala e na escuta, mas talvez em diversos modos de se relacionar, vislumbrar, analisar, se afetar... modos múltiplos, bem diferente dos botões on-off, e mais próximos aos botões que modulam som, amplitude, volume, intensidades...

Enfim, modos de modular as percepções do mundo!!!